10% das crianças conectadas do Brasil já desabafam com uma IA
Bill Gates descreve uma cena para quem tem filho em casa. Uma criança com quatro ou cinco amigos, todos de inteligência artificial. Ela nunca vai descobrir que o amigo acordou de mau humor, entendeu errado o que ela disse, precisa de ajuda hoje. A máquina é acomodada demais para isso. “O ajuste normal pelo qual a gente passa, de se desenvolver socialmente”, diz ele, “vai ser completamente ignorado.”
Ele fala como quem aponta para o horizonte. Mas o Cetic.br, braço de pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil, foi a campo entre março e setembro de 2025 e perguntou a 2.370 crianças e adolescentes o que eles fazem com IA generativa.
A TIC Kids Online Brasil 2025 encontrou 65% de usuários entre os conectados de 9 a 17 anos. Dentro desse grupo, 10% já usam a ferramenta para conversar sobre problemas pessoais e emoções. Entre os de 15 a 17 anos, 12%.
Não é projeção. É coisa medida: dos 24,5 milhões de crianças e adolescentes brasileiros conectados, os 65% que usam IA generativa somam cerca de 15,9 milhões, e é dentro desse grupo que o 1 em cada 10 aparece.
A entrevista de Gates a Van Jones, publicada no canal do apresentador, dura 31 minutos e é a melhor síntese pública do ensaio que ele lançou no Gates Notes em 26 de agosto. Vale ouvir. Traz também três afirmações que não sobrevivem à checagem, e a mais errada delas esconde a informação mais útil da conversa inteira para um pai brasileiro. É o que eu quero destrinchar: o que o alerta acerta, o que ele erra, e o que já acontece aqui enquanto se discute lá.
A estufa chegou antes do aviso
A metáfora é boa e é dele. No ensaio, segundo os trechos que circulam indexados, Gates escreve que um companheiro projetado para nunca te contrariar é “uma estufa grande e protegida”, algo que nunca empurra ninguém para fora da zona de conforto. Van Jones, na entrevista, converte aquilo em “bolha de efeito estufa”. A imagem que fica é a mesma: vidro, temperatura controlada, muda que cresce bonita e morre no primeiro vento.
O que muda é o tempo verbal. Gates fala no futuro, com a cautela de quem propõe uma agenda internacional. Os números brasileiros estão no presente.
A distribuição inteira desmonta o pânico e sustenta a preocupação ao mesmo tempo. Entre os conectados de 9 a 17 anos que usam IA generativa: 59% para pesquisa escolar, 42% para buscar informação, 21% para criar textos e imagens, 10% para falar de problemas pessoais. A maior parte do uso é utilitária e chata, como quase toda tecnologia nova quando para de ser notícia.
Mas a idade organiza tudo. Pesquisa escolar vai de 37% entre os de 9 e 10 anos a 68% entre os de 15 a 17. A conversa emocional segue o mesmo gradiente: 4% na infância, 12% na adolescência. Quanto mais velho o usuário, mais ele leva a máquina para dentro.
Foi a primeira edição da pesquisa a investigar IA generativa, e não existe série histórica. Ninguém pode dizer com honestidade que isso “cresceu”. Só dá para dizer que já está lá.
Do lado do sofrimento adolescente, o Brasil também tem número: na PeNSE 2024 do IBGE, 18,5% dos estudantes de 13 a 17 anos disseram sentir, na maior parte do tempo ou sempre, que a vida não vale a pena ser vivida.
Temos o dado de uso e o dado de dor. O que não existe, aqui nem em lugar nenhum, é o estudo que cruze os dois. Guarde a lacuna: ela reaparece adiante, do lado de quem alerta.
Antes disso, a parte da entrevista em que Gates elogia uma decisão que não é a que ele pensa que é.
O que a China proibiu, e não é o que Gates disse
Perguntado sobre limites para crianças, Gates responde que “a China tem sido a mais forte em dizer: nós simplesmente não vamos deixar crianças terem acesso a isso”. A frase está errada, e o erro é interessante: a norma real é mais cirúrgica que um veto, e muito mais transplantável para cá.
Em 10 de abril de 2026, a Administração do Ciberespaço da China e outros quatro órgãos publicaram as Medidas Provisórias para a Administração de Serviços de Interação Antropomórfica por Inteligência Artificial, em vigor desde 15 de julho. O que elas proíbem para menores é uma categoria específica: serviços de parente virtual, parceiro virtual e outras relações íntimas simuladas.
O resto continua permitido, com consentimento do responsável para menores de 14 anos, “modo menor de idade”, limite de tempo de uso, lembrete periódico de que aquilo é uma máquina e aviso a cada duas horas contínuas.
Ou seja: a China não fechou a porta. Proibiu o produto “namorada virtual para adolescente” e regulou o resto pelo relógio.
A distinção importa porque é justamente ela que falta no Brasil. Legislamos sobre infância digital antes de a IA entrar na conversa, e legislamos bem. A Lei 15.100/2025 tirou o celular da sala de aula. A Lei 15.211/2025, o ECA Digital, obrigou plataformas a verificação de idade, supervisão familiar e regras de dados, com multas de até R$ 50 milhões por infração e fiscalização da ANPD desde março de 2026.
| O que a regra alcança | China (jul/2026) | Brasil (2025–2026) |
|---|---|---|
| Tela e plataforma | modo menor, limite de tempo | ECA Digital, celular fora da aula |
| Verificação de idade | consentimento parental até os 14 | exigida das plataformas |
| Vínculo afetivo simulado com IA | proibido para menores | sem dispositivo específico |
O paradoxo fica de pé sozinho. O país que a conversa americana trata como o vilão autoritário da IA é o único que escreveu uma regra endereçada exatamente ao fenômeno que 12% dos adolescentes brasileiros já praticam. Gates elogiou a China pelo motivo errado.
Se a regra chinesa é mais fina do que ele imagina, a evidência que sustenta o alerta dele é mais fina do que soa.
As duas autoridades que Gates cita, e o que elas aguentam
Para justificar a preocupação, Gates invoca dois nomes: Jonathan Haidt e Scott Galloway. É o gesto natural de quem quer sair da opinião. Só que os dois carregam ressalvas que a entrevista não menciona.
Haidt é autor de The Anxious Generation, de 2024, que atribui o colapso da saúde mental adolescente no início dos anos 2010 à troca de uma infância baseada em brincadeira por uma infância baseada em celular. O livro vendeu muito e mudou o debate público em vários países.
Na Nature, a psicóloga Candice Odgers resenhou o livro para dizer que a tese central, a de que as tecnologias digitais estão reconfigurando o cérebro das crianças e causando uma epidemia de doença mental, “não é sustentada pela ciência”. A maior parte dos dados disponíveis, lembra ela, é correlacional.
Galloway divulga os números da solidão masculina. Eles são reais e vêm do Survey Center on American Life: a proporção de homens sem nenhum amigo próximo passou de 3% para 15% entre 1990 e 2021, e a de homens com seis ou mais amigos próximos caiu de 55% para 27%. São dados norte-americanos de 2021, anteriores aos chatbots de companhia. Servem para descrever o terreno em que a IA está caindo. Não servem para medir o que ela faz.
E o estudo que a cobertura associa ao ensaio de Gates? Um levantamento de Stanford e Carnegie Mellon com 1.131 usuários do Character.AI, dos quais 244 doaram o histórico de conversa: mais de 413 mil mensagens. O uso por companhia aparece associado a menor bem-estar, e a associação piora quanto mais intenso o uso. Os próprios autores escrevem, com todas as letras, que o desenho transversal dos dados não permite estabelecer causalidade. Quem se sente pior pode estar buscando o chatbot; o chatbot pode estar piorando quem o busca. O dado não distingue.
Nada disso torna Gates errado. Torna a coisa mais desconfortável do que se ele estivesse: a preocupação é razoável, a evidência é rala, e a decisão sobre a infância de milhões de pessoas vai ser tomada nesse intervalo. É o mesmo intervalo em que a Estônia decidiu apostar, e contei essa história em detalhe no post sobre o programa estoniano. O dilema é idêntico: agir sem prova ou esperar a prova chegar depois da geração.
O que nos leva à ideia mais original da entrevista, e à conta que ela não fecha.
“Trabalho reservado a humanos” e a pergunta de quem paga
Gates propõe uma categoria nova: ocupações que a sociedade protegeria da substituição por IA mesmo depois que a máquina fosse capaz de fazê-las. Ele compara a reservas naturais. Áreas demarcadas não por incompetência da tecnologia, mas por decisão sobre que tipo de vida queremos.
Na entrevista ele arrisca um tamanho: “qual parte do mercado de trabalho é isso, se você conseguisse levar a 40 ou 50%”. Repare na construção: é hipótese enunciada em voz alta, não estimativa. Não há metodologia atrás do número, e ele não deve circular como se houvesse.
A conta que ninguém faz é outra. Se o trabalho protegido custa mais caro que o robô, a diferença sai de onde? De imposto, de preço ou de salário? Gates chega perto quando observa que hoje “taxamos o trabalho e tratamos bem o capital”, e que isso vai ter de ser revisto. Mas para no diagnóstico.
Há ainda uma inversão que aparece na conversa e devia assustar mais do que assusta. É Van Jones quem a formula: hoje, ter um robô fazendo tudo por você é privilégio de rico; amanhã pode virar o contrário, com todo mundo numa sala de aula com máquinas e “só as crianças ricas podendo brincar com professores humanos”. Gates acata a imagem.
Num país onde o professor humano já é o único recurso disponível e já é mal pago, essa inversão não é ficção científica. É orçamento municipal.
A coordenação que ele pede é a que está desmoronando
Aqui está a parte que complica a tese deste post, e é justo trazê-la.
O remédio que Gates propõe é coordenação internacional: Estados Unidos e China concordando em monitorar modelos capazes de projetar moléculas, e depois o resto do mundo assinando embaixo. Ele diz ter “90% de certeza” de que a China aceitaria, probabilidade subjetiva sobre um evento que nunca aconteceu e que ninguém consegue verificar.
O histórico dele nesse tipo de arranjo é o melhor argumento a favor: as mortes de menores de 5 anos no mundo caíram mais da metade desde 2000, e a Gates Foundation foi uma das financiadoras centrais do período.
Foi exatamente essa a nota final da entrevista. Van Jones agradece a Gates por ter “cortado pela metade a taxa de morte de bebês negros na África”. A frase é dele, não de Gates, e erra em quase todas as partes.
A queda pela metade é global, não africana; o recorte é de menores de cinco anos, não de bebês; a estatística internacional não trabalha com a categoria “bebês negros”; e o resultado vem de um esforço coletivo de OMS, Unicef, Gavi, Fundo Global e governos nacionais, que nenhuma fonte primária atribui a uma organização só.
O número real é mais duro e mais interessante. Em 2024, 4,9 milhões de crianças morreram antes dos cinco anos, 2,3 milhões delas recém-nascidas. A África Subsaariana respondeu por 58% dessas mortes, com uma taxa quase catorze vezes maior que a da Europa e da América do Norte. E, desde 2015, o ritmo de queda desacelerou mais de 60%.
Em dezembro de 2025, a própria Gates Foundation projetou alta das mortes infantis pela primeira vez neste século.
Leia as duas coisas juntas. O homem que pede à humanidade um acordo global inédito sobre inteligência artificial está vendo, no campo em que mais entende, o acordo global que funcionou perder força e andar para trás. Não porque a ciência falhou. Porque o dinheiro e a atenção política foram embora.
Isso não invalida a proposta. Torna-a mais urgente e menos provável ao mesmo tempo, que é a pior combinação possível.
O vidro não protege ninguém do lado de dentro
A estufa é uma boa metáfora porque contém o próprio limite: serve para a muda que ainda não aguenta o clima lá fora, e serve só até o dia em que ela precisa aguentar.
Enquanto se discute quem vai construir o vidro (Washington, Pequim, uma cúpula que ninguém convocou), 12% dos adolescentes brasileiros conectados já resolveram o assunto sozinhos, com o telefone que estava na mão. A estufa deles não tem porta. Tem histórico de conversa.
Líder da última revolução tecnológica está dando o alerta sobre ESTA aqui — Van Jones
Fontes
- Cetic.br — TIC Kids Online Brasil 2025 (release)
- IBGE Educa — PeNSE 2024, saúde mental de adolescentes
- Administração do Ciberespaço da China — Medidas Provisórias para Serviços de Interação Antropomórfica por IA
- Câmara dos Deputados — Lei 15.211/2025, o “ECA Digital”
- Lei nº 15.100/2025 — celulares nas escolas
- Jonathan Haidt — The Anxious Generation (site oficial do livro)
- Candice Odgers — resenha de The Anxious Generation, Nature (2024)
- Survey Center on American Life — The State of American Friendship (2021)
- Zhang et al. — The Rise of AI Companions, pré-print arXiv (2025)
- Bill Gates — ensaio no Gates Notes (26/08/2026)
- OMS — ficha técnica de mortalidade de menores de 5 anos
- OMS — queda das mortes infantis desacelera, 4,9 milhões de mortes em 2024
- Gates Foundation — Goalkeepers, alta projetada das mortes infantis (12/2025)