10% das crianças conectadas do Brasil já desabafam com uma IA

1 de setembro de 2026
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Bill Gates descreve uma cena para quem tem filho em casa. Uma criança com quatro ou cinco amigos, todos de inteligência artificial. Ela nunca vai descobrir que o amigo acordou de mau humor, entendeu errado o que ela disse, precisa de ajuda hoje. A máquina é acomodada demais para isso. “O ajuste normal pelo qual a gente passa, de se desenvolver socialmente”, diz ele, “vai ser completamente ignorado.”

Ele fala como quem aponta para o horizonte. Mas o Cetic.br, braço de pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil, foi a campo entre março e setembro de 2025 e perguntou a 2.370 crianças e adolescentes o que eles fazem com IA generativa.

A TIC Kids Online Brasil 2025 encontrou 65% de usuários entre os conectados de 9 a 17 anos. Dentro desse grupo, 10% já usam a ferramenta para conversar sobre problemas pessoais e emoções. Entre os de 15 a 17 anos, 12%.

Não é projeção. É coisa medida: dos 24,5 milhões de crianças e adolescentes brasileiros conectados, os 65% que usam IA generativa somam cerca de 15,9 milhões, e é dentro desse grupo que o 1 em cada 10 aparece.

A entrevista de Gates a Van Jones, publicada no canal do apresentador, dura 31 minutos e é a melhor síntese pública do ensaio que ele lançou no Gates Notes em 26 de agosto. Vale ouvir. Traz também três afirmações que não sobrevivem à checagem, e a mais errada delas esconde a informação mais útil da conversa inteira para um pai brasileiro. É o que eu quero destrinchar: o que o alerta acerta, o que ele erra, e o que já acontece aqui enquanto se discute lá.

A estufa chegou antes do aviso

A metáfora é boa e é dele. No ensaio, segundo os trechos que circulam indexados, Gates escreve que um companheiro projetado para nunca te contrariar é “uma estufa grande e protegida”, algo que nunca empurra ninguém para fora da zona de conforto. Van Jones, na entrevista, converte aquilo em “bolha de efeito estufa”. A imagem que fica é a mesma: vidro, temperatura controlada, muda que cresce bonita e morre no primeiro vento.

O que muda é o tempo verbal. Gates fala no futuro, com a cautela de quem propõe uma agenda internacional. Os números brasileiros estão no presente.

A distribuição inteira desmonta o pânico e sustenta a preocupação ao mesmo tempo. Entre os conectados de 9 a 17 anos que usam IA generativa: 59% para pesquisa escolar, 42% para buscar informação, 21% para criar textos e imagens, 10% para falar de problemas pessoais. A maior parte do uso é utilitária e chata, como quase toda tecnologia nova quando para de ser notícia.

Mas a idade organiza tudo. Pesquisa escolar vai de 37% entre os de 9 e 10 anos a 68% entre os de 15 a 17. A conversa emocional segue o mesmo gradiente: 4% na infância, 12% na adolescência. Quanto mais velho o usuário, mais ele leva a máquina para dentro.

Foi a primeira edição da pesquisa a investigar IA generativa, e não existe série histórica. Ninguém pode dizer com honestidade que isso “cresceu”. Só dá para dizer que já está lá.

Do lado do sofrimento adolescente, o Brasil também tem número: na PeNSE 2024 do IBGE, 18,5% dos estudantes de 13 a 17 anos disseram sentir, na maior parte do tempo ou sempre, que a vida não vale a pena ser vivida.

Temos o dado de uso e o dado de dor. O que não existe, aqui nem em lugar nenhum, é o estudo que cruze os dois. Guarde a lacuna: ela reaparece adiante, do lado de quem alerta.

Antes disso, a parte da entrevista em que Gates elogia uma decisão que não é a que ele pensa que é.

O que a China proibiu, e não é o que Gates disse

Perguntado sobre limites para crianças, Gates responde que “a China tem sido a mais forte em dizer: nós simplesmente não vamos deixar crianças terem acesso a isso”. A frase está errada, e o erro é interessante: a norma real é mais cirúrgica que um veto, e muito mais transplantável para cá.

Em 10 de abril de 2026, a Administração do Ciberespaço da China e outros quatro órgãos publicaram as Medidas Provisórias para a Administração de Serviços de Interação Antropomórfica por Inteligência Artificial, em vigor desde 15 de julho. O que elas proíbem para menores é uma categoria específica: serviços de parente virtual, parceiro virtual e outras relações íntimas simuladas.

O veto geral que a fala de Gates sugere, contra a regra que a China escreveu: acesso aberto, uso cronometrado.

O resto continua permitido, com consentimento do responsável para menores de 14 anos, “modo menor de idade”, limite de tempo de uso, lembrete periódico de que aquilo é uma máquina e aviso a cada duas horas contínuas.

Ou seja: a China não fechou a porta. Proibiu o produto “namorada virtual para adolescente” e regulou o resto pelo relógio.

A distinção importa porque é justamente ela que falta no Brasil. Legislamos sobre infância digital antes de a IA entrar na conversa, e legislamos bem. A Lei 15.100/2025 tirou o celular da sala de aula. A Lei 15.211/2025, o ECA Digital, obrigou plataformas a verificação de idade, supervisão familiar e regras de dados, com multas de até R$ 50 milhões por infração e fiscalização da ANPD desde março de 2026.

O que a regra alcançaChina (jul/2026)Brasil (2025–2026)
Tela e plataformamodo menor, limite de tempoECA Digital, celular fora da aula
Verificação de idadeconsentimento parental até os 14exigida das plataformas
Vínculo afetivo simulado com IAproibido para menoressem dispositivo específico
A última célula da tabela é a mais frágil do post, e eu prefiro dizer isso a fingir o contrário: não localizei dispositivo do ECA Digital ou da regulamentação de março de 2026 que trate de companions de IA. A matéria da Câmara sobre a lei não menciona inteligência artificial em nenhum ponto, e o texto integral no Planalto não abriu nas tentativas desta apuração. É um “não encontrei”, não um “não existe”. Se existir, alguém precisa mostrar, porque hoje ninguém está aplicando.

O paradoxo fica de pé sozinho. O país que a conversa americana trata como o vilão autoritário da IA é o único que escreveu uma regra endereçada exatamente ao fenômeno que 12% dos adolescentes brasileiros já praticam. Gates elogiou a China pelo motivo errado.

Se a regra chinesa é mais fina do que ele imagina, a evidência que sustenta o alerta dele é mais fina do que soa.

As duas autoridades que Gates cita, e o que elas aguentam

Para justificar a preocupação, Gates invoca dois nomes: Jonathan Haidt e Scott Galloway. É o gesto natural de quem quer sair da opinião. Só que os dois carregam ressalvas que a entrevista não menciona.

Haidt é autor de The Anxious Generation, de 2024, que atribui o colapso da saúde mental adolescente no início dos anos 2010 à troca de uma infância baseada em brincadeira por uma infância baseada em celular. O livro vendeu muito e mudou o debate público em vários países.

Na Nature, a psicóloga Candice Odgers resenhou o livro para dizer que a tese central, a de que as tecnologias digitais estão reconfigurando o cérebro das crianças e causando uma epidemia de doença mental, “não é sustentada pela ciência”. A maior parte dos dados disponíveis, lembra ela, é correlacional.

Galloway divulga os números da solidão masculina. Eles são reais e vêm do Survey Center on American Life: a proporção de homens sem nenhum amigo próximo passou de 3% para 15% entre 1990 e 2021, e a de homens com seis ou mais amigos próximos caiu de 55% para 27%. São dados norte-americanos de 2021, anteriores aos chatbots de companhia. Servem para descrever o terreno em que a IA está caindo. Não servem para medir o que ela faz.

E o estudo que a cobertura associa ao ensaio de Gates? Um levantamento de Stanford e Carnegie Mellon com 1.131 usuários do Character.AI, dos quais 244 doaram o histórico de conversa: mais de 413 mil mensagens. O uso por companhia aparece associado a menor bem-estar, e a associação piora quanto mais intenso o uso. Os próprios autores escrevem, com todas as letras, que o desenho transversal dos dados não permite estabelecer causalidade. Quem se sente pior pode estar buscando o chatbot; o chatbot pode estar piorando quem o busca. O dado não distingue.

Nada disso torna Gates errado. Torna a coisa mais desconfortável do que se ele estivesse: a preocupação é razoável, a evidência é rala, e a decisão sobre a infância de milhões de pessoas vai ser tomada nesse intervalo. É o mesmo intervalo em que a Estônia decidiu apostar, e contei essa história em detalhe no post sobre o programa estoniano. O dilema é idêntico: agir sem prova ou esperar a prova chegar depois da geração.

O que nos leva à ideia mais original da entrevista, e à conta que ela não fecha.

“Trabalho reservado a humanos” e a pergunta de quem paga

Gates propõe uma categoria nova: ocupações que a sociedade protegeria da substituição por IA mesmo depois que a máquina fosse capaz de fazê-las. Ele compara a reservas naturais. Áreas demarcadas não por incompetência da tecnologia, mas por decisão sobre que tipo de vida queremos.

A lista muda conforme a fonte. Na entrevista, Gates cita jurado, juiz, certos elementos da arte, cuidado infantil, preparo de alimentos e a parte da educação em que se conversa com uma criança sobre o que ela quer da vida. A cobertura do ensaio menciona outra combinação: cuidado de idosos, educação básica, apoio em saúde mental. Não consegui abrir o ensaio original (o site devolveu erro de acesso em todas as tentativas), então trato a lista falada como fala, não como texto publicado.

Na entrevista ele arrisca um tamanho: “qual parte do mercado de trabalho é isso, se você conseguisse levar a 40 ou 50%”. Repare na construção: é hipótese enunciada em voz alta, não estimativa. Não há metodologia atrás do número, e ele não deve circular como se houvesse.

A conta que ninguém faz é outra. Se o trabalho protegido custa mais caro que o robô, a diferença sai de onde? De imposto, de preço ou de salário? Gates chega perto quando observa que hoje “taxamos o trabalho e tratamos bem o capital”, e que isso vai ter de ser revisto. Mas para no diagnóstico.

Há ainda uma inversão que aparece na conversa e devia assustar mais do que assusta. É Van Jones quem a formula: hoje, ter um robô fazendo tudo por você é privilégio de rico; amanhã pode virar o contrário, com todo mundo numa sala de aula com máquinas e “só as crianças ricas podendo brincar com professores humanos”. Gates acata a imagem.

Num país onde o professor humano já é o único recurso disponível e já é mal pago, essa inversão não é ficção científica. É orçamento municipal.

A coordenação que ele pede é a que está desmoronando

Aqui está a parte que complica a tese deste post, e é justo trazê-la.

O remédio que Gates propõe é coordenação internacional: Estados Unidos e China concordando em monitorar modelos capazes de projetar moléculas, e depois o resto do mundo assinando embaixo. Ele diz ter “90% de certeza” de que a China aceitaria, probabilidade subjetiva sobre um evento que nunca aconteceu e que ninguém consegue verificar.

O histórico dele nesse tipo de arranjo é o melhor argumento a favor: as mortes de menores de 5 anos no mundo caíram mais da metade desde 2000, e a Gates Foundation foi uma das financiadoras centrais do período.

Foi exatamente essa a nota final da entrevista. Van Jones agradece a Gates por ter “cortado pela metade a taxa de morte de bebês negros na África”. A frase é dele, não de Gates, e erra em quase todas as partes.

A queda pela metade é global, não africana; o recorte é de menores de cinco anos, não de bebês; a estatística internacional não trabalha com a categoria “bebês negros”; e o resultado vem de um esforço coletivo de OMS, Unicef, Gavi, Fundo Global e governos nacionais, que nenhuma fonte primária atribui a uma organização só.

O número real é mais duro e mais interessante. Em 2024, 4,9 milhões de crianças morreram antes dos cinco anos, 2,3 milhões delas recém-nascidas. A África Subsaariana respondeu por 58% dessas mortes, com uma taxa quase catorze vezes maior que a da Europa e da América do Norte. E, desde 2015, o ritmo de queda desacelerou mais de 60%.

Em dezembro de 2025, a própria Gates Foundation projetou alta das mortes infantis pela primeira vez neste século.

Leia as duas coisas juntas. O homem que pede à humanidade um acordo global inédito sobre inteligência artificial está vendo, no campo em que mais entende, o acordo global que funcionou perder força e andar para trás. Não porque a ciência falhou. Porque o dinheiro e a atenção política foram embora.

Isso não invalida a proposta. Torna-a mais urgente e menos provável ao mesmo tempo, que é a pior combinação possível.

O vidro não protege ninguém do lado de dentro

A estufa é uma boa metáfora porque contém o próprio limite: serve para a muda que ainda não aguenta o clima lá fora, e serve só até o dia em que ela precisa aguentar.

Enquanto se discute quem vai construir o vidro (Washington, Pequim, uma cúpula que ninguém convocou), 12% dos adolescentes brasileiros conectados já resolveram o assunto sozinhos, com o telefone que estava na mão. A estufa deles não tem porta. Tem histórico de conversa.


Líder da última revolução tecnológica está dando o alerta sobre ESTA aqui — Van Jones

Fontes