Sete em cada dez alunos brasileiros já usam IA na escola. Quase ninguém explicou como.

26 de agosto de 2026
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Em abril de 2023, recém-empossada no Ministério da Educação e Pesquisa da Estônia, Kristina Kallas recebeu um assessor. “Cara ministra, acho que precisamos fazer alguma coisa sobre inteligência artificial.” Ela perguntou o quê. Ele respondeu que não tinha certeza.

IA não estava na agenda dela. O ChatGPT tinha cinco meses de vida. Dois meses depois, o assessor voltou com a mesma conversa e um detalhe novo: os alunos já estavam usando aquilo nas escolas. E continuava sem saber o que fazer.

Três anos depois, a Estônia é o primeiro país, e segundo Kallas ainda o único, a entregar um tutor de IA em estilo socrático aos alunos de ensino médio.

A história está numa palestra de catorze minutos no TEDxUniversity of Tartu, publicada no YouTube. Kallas começa avisando que não vai falar de IA: “vou falar de humanos”.

É a melhor defesa que ouvi de uma decisão que quase todo ministério da educação do planeta empurra com a barriga, e se apoia num relatório de 2017 que ninguém cita. Também tem dois pontos em que ela força a mão.

E tem um problema que ela não precisa ter, porque governa 1,3 milhão de pessoas com um dos melhores desempenhos escolares da Europa. Esse problema é nosso, e não derruba o argumento dela: com os números brasileiros na conta, ele fica mais urgente e muito mais difícil de executar.

Um país inteiro virou grupo de tratamento

Entre a segunda visita do assessor e qualquer decisão passou-se quase um ano. Kallas conta que o ministério foi atrás de “gente mais inteligente”: reunião após reunião com neurocientistas, cientistas cognitivos, empresas de tecnologia e pessoal de TI, com uma pergunta só. O que a IA faz com o aprendizado.

A conclusão que ela tirou dali organiza o resto da palestra. “Não é sobre tecnologia”, diz. Tecnologia é problema de outro ministério; o dela é o que acontece com o cérebro e com a capacidade humana de aprender.

Da consulta saiu uma estratégia nacional de IA para as escolas no fim de 2024; o programa começou em fevereiro de 2025. Chama-se AI Leap; em estoniano, TI-hüpe. O nome não é acidente: ecoa o Tiigrihüpe, o “Salto do Tigre” anunciado em 1996, cinco anos depois da saída da órbita soviética, cuja meta oficial não era comprar computador e sim ligar todas as escolas do país à internet. A meta foi dada por cumprida no começo de 2000. A Estônia trata escola como infraestrutura nacional.

Em 1º de setembro de 2025, o AI Leap deu acesso a ferramentas de IA a cerca de 20 mil alunos do 10º e 11º ano e a seus professores. Neste setembro se estende ao ensino profissionalizante (etapa que Kallas anuncia na palestra) e a uma nova leva de 10º ano: mais 38 mil estudantes.

Três detalhes de execução dizem mais que o anúncio:

  • Metade do dinheiro é privado. Empresas bancam metade do orçamento; o ministério, a outra.
  • O ministério não toca o programa. A operação foi passada a uma fundação, e Kallas justifica com uma franqueza que dá inveja: “há várias razões pelas quais o ministério não é o melhor lugar para fazer esse tipo de iniciativa inovadora”.
  • O foco declarado não é o aluno, é o professor. Ela usa a palavra “absoluto”: o grosso do esforço é formar docentes para usar a ferramenta de um jeito que empurre o aluno para a análise, não para a resposta pronta.

A ferramenta também não é o ChatGPT que você abre no celular. É, nas palavras dela, “uma versão socrática do GPT para escolas”, construída em parceria de pesquisa com a OpenAI para devolver pergunta em vez de entregar parágrafo.

Nenhum país pequeno gasta metade de um orçamento e a reputação de um ministério por moda. A justificativa está num relatório de nove anos atrás.

O relatório de 2017 que ninguém leu

Aqui está o melhor dado da palestra, e o mais fácil de repetir errado.

Em 2017 a OCDE publicou Computers and the Future of Skill Demand. A metodologia é engenhosa: pegaram as questões do PIAAC, a pesquisa internacional que mede letramento, numeramento e resolução de problemas digitais entre adultos, perguntaram a especialistas quais delas as máquinas da época já respondiam e compararam com o desempenho real dos trabalhadores.

O número que a própria OCDE destaca:

Apenas 13% dos trabalhadores usam essas habilidades no dia a dia com uma proficiência claramente superior à dos computadores.

Na palestra, Kallas resume isso como “dois terços da força de trabalho” com letramento, numeramento e habilidades digitais abaixo dos computadores. Os dois terços são do relatório mesmo: estão no prefácio, assinado pela OCDE. O que a paráfrase troca é o verbo. O texto fala em estar no mesmo nível ou abaixo, e o dado que ele próprio põe na vitrine é o do outro lado da conta, os 13% claramente acima. Empatar com a máquina e perder para a máquina são situações profissionais diferentes.

Corrigida a frase, o susto continua de pé, e a data em que ele mora não é a que parece. Esses 13% não são um retrato das máquinas de 2017. São a projeção da OCDE para a capacidade dos computadores em 2026. Para as máquinas que existiam em 2016, o mesmo relatório dava o contrário: 44% dos trabalhadores claramente acima delas, e 31% empatados.

Leia de novo, devagar. Em 2017, cinco anos antes de o ChatGPT existir, a OCDE apontou o dedo para o ano em que você está lendo este texto e disse que dois em cada três trabalhadores estariam, nele, no melhor dos casos empatados com uma máquina. O relatório não envelheceu bem nem mal. Ele marcou hora, e a hora é agora.

A pergunta que Kallas tira dali é desconfortável até para ela, e ela a formula sem rodeio: se existem computadores que fazem isso, para que serve a educação? “Deveríamos simplesmente desistir de aprender?”

A árvore que ela desenha e não nomeia

A resposta aparece num slide com seis degraus: lembrar, entender, aplicar, analisar, avaliar, criar. Kallas chama aquilo de “árvore cognitiva” e não diz o nome. É a taxonomia de Bloom revisada, o esquema mais usado no planejamento de aula no mundo.

De onde vem essa escada

O slide reproduz a revisão de Lorin Anderson e David Krathwohl, de 2001, sobre a classificação que Benjamin Bloom e colegas propuseram em 1956. Ela trocou substantivos por verbos (“conhecimento” virou “lembrar”) e inverteu os dois degraus do topo: no original, sintetizar vinha antes de avaliar; na revisão, criar passou a ser o último.

Antes da escada, ela separa o cérebro em dois modos. O modo cognitivo baixo é o da memória e do automatismo: você aprende a andar de bicicleta uma vez e não reaprende toda vez que sobe nela.

O exemplo que ela dá do preço disso é o melhor momento da palestra. Estereótipo, diz Kallas, é modo cognitivo baixo funcionando direitinho: “aprendemos que italianos são barulhentos, e aí esperamos que todo italiano seja barulhento toda vez que encontramos um, porque é assim que nosso cérebro opera”. O modo alto é o oposto: reaprender a cada situação, usar o que se sabe para enfrentar o que ainda não se sabe.

O argumento é direto. Os três degraus de baixo são onde os sistemas escolares param há dois séculos: você decora que a Segunda Guerra começou em 1939, entende o que isso quer dizer, repete na prova quando perguntam. Os três de cima ficam reservados para o doutorado: analisar por que começou em 1939, quem eram os atores, que motivos tinham; avaliar eticamente; criar algo novo.

E aqui Kallas é mais interessante que a versão simplificada que circula por aí. Ela não diz que a IA só é boa nos degraus de baixo. Diz que dá conta da escada quase inteira, “com algumas exceções”: para ela, os modelos ainda são fracos em avaliação ética e em criação, porque só criam “a partir de casos de probabilidade estatística”. Nesse sentido, afirma, “o cérebro humano ainda é único”.

É uma tese forte e discutível. Mas a conclusão prática independe dela: escola que para em “aplicar” treina gente para competir na faixa em que a máquina ganha sempre. Kallas quer análise, avaliação e criação começando no 7º ano, com crianças de 12 e 13 anos.

O mecanismo que ela oferece para explicar a dificuldade, porém, não se sustenta. Ela diz que o cérebro prefere o modo baixo porque gasta menos energia, que ele é “nosso maior órgão” e que quem estuda para uma prova complicada “vai estar fisicamente morto no dia seguinte”, mais cansado do que depois de uma maratona. O cérebro não é o maior órgão, e o custo adicional de pensar com esforço é pequeno: ele já consome cerca de um quinto do gasto de repouso o tempo todo, e um período de esforço mental pede um pouco mais de energia que o de sempre, mas não muito mais.

O comportamento que ela descreve existe: o cérebro é um avarento cognitivo. Mas o preço não é caloria. É atenção, motivação e tolerância ao desconforto de não saber. Isso muda o que se faz a respeito: não dá para alimentar ninguém até o pensamento de ordem superior, só dá para desenhar tarefa que não funcione sem ele.

Sobra o segundo ponto em que ela força a mão. Esse é maior.

A prensa não alfabetizou ninguém

Kallas usa uma palavra específica, várias vezes: evolução. A IA nos põe sob “pressão evolutiva”, diz ela, como a prensa de Gutenberg pôs, e naquela ocasião “todos os humanos evoluíram na capacidade de aprender a ler”. A pressão de agora, insiste, não é física, é mental, e o órgão sob pressão é o cérebro: “temos de evoluir”.

Não foi assim. Gutenberg imprimiu a Bíblia por volta de 1450. A alfabetização universal só apareceu no Ocidente quatro séculos depois, e não porque havia livros: porque houve escola obrigatória, professor pago e Estado disposto a cobrar presença.

O Brasil ainda não terminou o serviço. O IBGE contou 8,4 milhões de analfabetos de 15 anos ou mais em 2025, a primeira vez que a taxa ficou abaixo de 5% na série iniciada em 2016.

Aprender a ler muda o cérebro, e isso é bem documentado: comparar adultos alfabetizados com não alfabetizados mostra que a leitura reorganiza a via visual do córtex, sequestrando para as letras uma região que antes respondia mais a rostos. Mas acontece dentro de uma vida, reciclando circuito que já existia. Cinco séculos de imprensa não trocaram uma base nitrogenada de lugar.

Chamar isso de evolução é generoso com o processo e cruel com quem tem de executá-lo. Evolução é automática; política pública não é. Se a comparação com a prensa vale, ela diz o contrário do que a metáfora sugere: o salto cognitivo do último grande choque tecnológico levou séculos, custou caro e dependeu de instituição.

O que nos leva à parte em que a Estônia joga com as cartas que tem, e nós, com as nossas.

Traduzindo para 7,4 milhões

O piloto inteiro do AI Leap tem 20 mil alunos. O Brasil tem 7,4 milhões de matrículas presenciais no ensino médio, segundo o Censo Escolar 2025: 368 vezes mais. O que na Estônia é uma coorte, aqui é um país.

A escala é o menor dos problemas. O ponto de partida é outro.

Indicador (PISA 2022)BrasilEstôniaMédia OCDE
Matemática379510472
Leitura410511476
Pensamento criativo (0 a 60)233633

No PISA 2022, 73% dos estudantes brasileiros de 15 anos ficaram abaixo do nível 2 em matemática, o piso que a OCDE considera mínimo para a vida adulta. Na média dos países da organização foram 31%. Em leitura, metade dos nossos ficou abaixo do piso.

A linha mais desconfortável da tabela é a última. Em 2022 o PISA mediu pensamento criativo pela primeira vez, o degrau do topo da escada de Bloom, justamente o que Kallas aponta como território ainda humano. O Brasil tirou 23 de 60 num teste aplicado em 64 países. A OCDE não publica classificação, publica escore com margem de erro; dentro dessa margem, o Brasil cai num grupo de países entre a 44ª e a 53ª posição. A Estônia tirou 36.

Do lado adulto não melhora: o Inaf 2024 encontrou 29% de analfabetos funcionais entre brasileiros de 15 a 64 anos, o mesmo patamar de 2018. Entre os jovens de 15 a 29, piorou: de 14% para 16%.

Agora o dado que fecha o argumento. A TIC Educação 2024, do Cetic.br, ouviu mais de dez mil pessoas em mil escolas: sete em cada dez alunos de ensino médio usuários de internet já recorrem a IA generativa para pesquisa escolar, e só 32% receberam alguma orientação da escola sobre como fazer isso. E a proporção de professores que participaram de alguma formação continuada sobre tecnologias digitais nos doze meses anteriores à pesquisa caiu de 65% em 2021 para 54% em 2024; na rede municipal, de 62% para 43%. O degrau maior dessa queda já tinha acontecido em 2022.

Enquanto a Estônia decidia o que os alunos deviam fazer com a IA, nós decidimos onde eles não podem segurar o celular: a Lei 15.100, de janeiro de 2025, restringiu aparelhos pessoais em toda a educação básica. É uma lei defensável e provavelmente boa. Só não responde à mesma pergunta. O MEC lançou em abril deste ano o documento orientador Inteligência Artificial na Educação Básica: documento sério, três anos depois de o assessor estoniano bater na porta da ministra.

A conclusão, então, é que o Brasil não tem base para essa aposta? É quase o oposto.

Onde eu posso estar errado

O melhor experimento sobre o assunto foi feito com cerca de mil alunos de ensino médio numa escola da Turquia e publicado na PNAS em 2025. Três grupos estudaram matemática: sem IA, com um GPT-4 comum e com um “GPT Tutor” configurado para dar pistas escritas por professores em vez de respostas.

Durante os exercícios, todo mundo com IA foi melhor: 48% acima do controle com o GPT comum, 127% com o tutor. Depois veio a prova, sem IA na mão. Quem tinha usado o GPT comum foi 17% pior que o grupo de controle. Quem tinha usado o tutor com trava não perdeu nada.

Leia esse resultado do jeito que ele dói. A versão sem trava, a que reduz o aprendizado, é exatamente a que sete em cada dez adolescentes brasileiros já têm aberta no celular, de graça, sem orientação nenhuma. A versão que não fez mal é a que a Estônia foi construir com a OpenAI e distribuir com formação de professor junto.

O Brasil não está fora do experimento. Está dentro, no braço errado, sem consentimento informado e sem ninguém medindo.

O que não prova que a aposta estoniana funcione. E é justo registrar que o medo que move Kallas vem nos mesmos termos que eu passo a relativizar agora: o que mais assustava o ministério, conta ela, era que, sem fazer nada, viessem “brain rot e descarregamento cognitivo”, com o sistema educacional seguindo por inércia nos processos mentais de sempre.

Só que a evidência por trás desse vocabulário é rala. O estudo mais citado sobre descarregamento cognitivo, a ideia de que terceirizar o pensamento atrofia a capacidade de pensar, é correlacional e baseado em autorrelato: mostra associação, não causa. O trabalho do MIT que virou manchete com o nome de “dívida cognitiva” tem 54 participantes, é preprint sem revisão por pares e já recebeu comentário técnico contestando a análise. Brain rot é expressão de internet, não diagnóstico. E um experimento numa escola turca não é o mundo.

A própria Kallas admite o buraco, e é a frase mais confiável dos catorze minutos: “nós também não sabemos muito o que está acontecendo. Estamos realmente observando e aprendendo à medida que avançamos, porque ainda não há respostas claras ou definitivas”. Ela diz que o país faz monitoramento científico do programa, e no fôlego seguinte que existe “muito pouca ciência” sobre o tema. É por isso, acrescenta, que a Estônia não pede aplausos: pede que os outros venham aprender junto.

O que sobra

Três anos atrás, um assessor entrou na sala de uma ministra e disse duas vezes que não sabia o que fazer. Hoje aquela dúvida virou um país inteiro se oferecendo como seu próprio grupo de tratamento.

Sete em cada dez alunos já usam IA, sem plano, sem trava, sem professor formado — isso já aconteceu. O nosso problema nunca foi não saber. Foi fingir que ainda estamos decidindo.


When AI Knows Everything, What Should Humans Learn? | Kristina Kallas | TEDxUniversity of Tartu — TEDx Talks

Fontes